O homem mais procurado do momento, Julian Assange, criador do site
WikiLeaks, reapareceu na imprensa nesta sexta-feira para responder
perguntas de internautas do jornal britânico "The Guardian". Questionado
desde as ameaças de morte que recebe a possíveis vazamentos sobre vida
extraterrestre, Assange fez duras críticas à pressão dos governos
ocidentais, mas fugiu quando um ex-diplomata o perguntou sobre as
consequências dos vazamentos para o trabalho da diplomacia.
Assange, que, segundo informações da imprensa, pode estar no Reino Unido, é alvo de uma ordem de prisão emitida pela justiça sueca por um suposto caso de estupro, o que originou nesta semana uma notificação vermelha da Interpol.
Todo isso coincide com a publicação desde domingo passado de mais de 250
mil mensagens diplomáticas americanas que provocou a ira dos Estados
Unidos e gerou reações em todo o mundo, especialmente dos governos
citados nos telegramas.
Assange criticou duramente a censura que o site tem sofrido dos governos
ocidentais e afirmou que o discurso de liberdade de expressão
característico dos governos é vazio --e gratuito.
"O ocidente tem fiscalizado suas relações básicas de poder através de
uma teia de contratos, empréstimos, participações, holdings e assim por
diante. Em tal ambiente, é fácil falar sobre ser "livre", porque uma
mudança na política raramente leva a qualquer mudança nestes
instrumentos básicos", disse Assange.
"O discurso ocidental, como algo que raramente tem algum efeito sobre o
poder, é gratuito. Em Estados como a China, há uma censura generalizada,
porque o discurso ainda tem o poder e o poder está com medo dele.
Devemos sempre olhar para a censura como um sinal econômico que revela o
poder potencial de expressão nesse país".
O criador do site afirmou que seu objetivo é dar a importância devida às
fontes de informações confidenciais, "sem as quais os jornalistas
seriam nada". Ele dá crédito ainda à tese de que o analista de
inteligência do Exército dos EUA no Iraque Bradley Manning, 22, estaria
por trás dos vazamentos. "Se realmente este for o caso, como alegado
pelo Pentágono, de que o jovem soldado está por trás de alguns dos
recentes vazamentos, ele então é, sem dúvida, um herói sem paralelo".
Manning já estava preso sob a acusação de ter passado ao WikiLeaks um
vídeo de 2007 que mostrava um ataque de helicóptero que deixou 12 mortos
no Iraque, inclusive dois jornalistas da agência de notícias Reuters.
Ele foi preso novamente e aguarda julgamento desde os recentes
vazamentos do WikiLeaks sobre a guerra do Afeganistão. Num chat pela
Internet, Manning teria confessado a um hacker que havia copiado o
material diretamente do SIPRNet, gravando-o sobre músicas de Lady Gaga
em um CD.
O criador do WikiLeaks falou ainda das ameaças de morte que tem recebido
e afirmou que está tomando medidas de segurança. "As ameaças contra
nossas vidas são de domínio público. No entanto, estamos tomando as
precauções apropriadas até o limite do que podemos por estar tratando
com uma superpotência", respondeu.
Assange ignorou, contudo, a longa pergunta de um intitulado ex-diplomata
britânico, que perguntou por que o criador do WikiLeaks não deveria ser
diretamente responsabilizado se a próxima crise internacional ficar sem
solução por medo dos diplomatas de terem segredos revelados.
"Se você cortar a vasta carta editorial à questão singular que realmente
perguntou, eu ficaria feliz em dar a minha atenção", respondeu.
Veja os principais trechos da entrevista aos leitores do "Guardian"
PROIBIDO DE VOLTAR PRA CASA
Um dos leitores perguntou se o australiano Assange não desejava voltar
para seu país natal. Ele afirmou "sentir muita falta" de seu país, mas
disse que, nas últimas semanas, a premiê australiana, Julia Gillard, e o
procurador-geral, Robert McClelland, "deixaram claro que não apenas meu
retorno é impossível, mas que eles estão trabalhando ativamente para
ajudar os Estados Unidos em seus ataques contra mim e nosso pessoal".
"Isto traz em questão o que significa ser um cidadãos australiano.
Significa alguma coisa? Ou nós seremos tratados todos como David Hicks
[australiano membro do grupo radical Taleban] na primeira oportunidade
meramente para que os políticos e diplomatas australianos possam ser
convidados para as melhores festas da embaixada americana?".
EXTRATERRESTRES
Assange foi questionado ainda se já recebeu documentos sobre Ovnis e
extraterrestres. "Muitas pessoas estranhas nos mandam e-mail sobre Ovnis
e como eles descobriram o antiCristo quando conversavam com suas
ex-mulheres em uma festa no jardim, em uma planta", revelou, lembrando
que estes relatos não poderiam ser publicados porque não obedecem às
regras do WikiLeaks de ser original e não ser de autoria de quem os
envia.
"Contudo, é bom ressaltar que parte dos telegramas ainda a serem publicados há efetivamente referência a Ovnis", completou.
TESTE DE SERVIDORES
Assange afirmou ainda que, desde 2007, o WikiLeaks deliberadamente usa
servidores em jurisdições onde haja suspeita de censura "para separar a
retórica da realidade". Ele afirma que a americana Amazon, que nesta
quarta-feira (1) expulsou o site de seus servidores, é um destes casos.
ROSTO PÚBLICO
"Inicialmente eu tentei duramente que a organização não tivesse um
rosto, porque eu não queria que os egos participassem de nossas
atividades", explicou Assange, questionado sobre porque decidiu se
mostrar ao público.
"No entanto, isto levou rapidamente a curiosidade tremenda sobre quem
éramos e alguns indivíduos falando que nós representavam. No final,
alguém deve ser responsável perante o público e apenas uma liderança que
está disposta a ser publicamente corajosa pode sugerir genuinamente que
as fontes assumam riscos para o bem maior. Nesse processo, eu me tornei
o para-raios".

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