No início do mês, um anúncio de um creme da marca Lancôme que trazia a imagem da atriz Julia Roberts retocada digitalmente teve sua veiculação proibida no Reino Unido sob a alegação de se tratar de propaganda enganosa. O episódio reacendeu a discussão sobre os limites para a alteração digital de imagens.
O enfrentamento dos casos de abuso preocupa autoridades brasileiras. Na Câmara dos Deputados, tramita o projeto de lei 6853/2010, já apelidado de "Lei do Photoshop", que prevê que imagens em veículos de comunicação que tenham sido alteradas tragam mensagem de alerta sobre a modificação. Na justificativa do projeto, o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA) afirma que sua intenção é "disponibilizar uma informação mais completa ao cidadão, para que ele possa ter mais subsídios para construir seus próprios valores e tomar suas próprias decisões".
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| Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas |
O presidente da Associação Brasileira dos Fotógrafos de Publicidade, Tony Genérico, considera esse tipo de alerta positivo para a relação com o consumidor. "O que vemos muitas vezes é um nível de alteração da realidade que é um verdadeiro desrespeito ao público." Para ele, o mais importante é que a imagem não altere a realidade.
Gilberto dos Reis, diretor-executivo do Clube de Criação de São Paulo (entidade que se propõe a preservar a criatividade da propaganda), acha condenável qualquer tentativa de iludir o consumidor. "A publicidade conta com uma certa 'licença poética', que lhe permite usar imagens manipuladas quando está claro que não se quer representar a realidade", defende. "O problema é se houver a intenção de enganar o público, de mostrar um produto que na verdade é diferente daquele visto no anúncio."
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| Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas |
Para o fotógrafo de moda Alex Villegas, especialista em tratamento de imagem, a questão é mais grave para quem considera a fotografia como uma ferramenta unicamente documental, que teria a obrigação de ser um registro fiel do mundo real. "É preciso ter em mente que ela é também abstração, uma representação de uma ideia artística." Ele ressalta que um dos desafios da publicidade é se equilibrar entre esses dois aspectos. "Quando a gente vê um anúncio de carro, não vemos a realidade. Nunca há engarrafamento, por exemplo. Isso porque o que se vende não é só o produto, mas sim o estilo de vida que o carro representa."
Um sinal de que a manipulação passou do limite é quando o próprio modelo se sente incomodado com o resultado final da imagem. Foi o que aconteceu com Caetano Veloso, que criticou publicamente o resultado final de uma foto sua ao lado de Gal Costa na capa da edição de julho da revista "Rolling Stone". Perto dos 70 anos, o cantor aparece com as rugas suavizadas. "Fique com cara de político babaca", disse em entrevista no "Programa do Jô".
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| Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas |
O site Photoshop Disasters (www.psdisasters.com) reúne casos de manipulação de imagens que por vezes beiram o grotesco ou o absurdo, como pessoas atravessando paredes ou modelos com membros desproporcionais.
No meio de tantas considerações, o fotógrafo e professor de tecnologia digital Clicio Barroso lembra que é importante não demonizar o programa em si. "O Photoshop é uma ferramenta fenomenal, e hoje não é possível pensar a fotografia sem esse recurso. O problema é o uso que se faz dele. Se você usa um martelo para bater um prego, tudo bem. Se você o usa para agredir seu vizinho, a culpa não é do martelo."



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