sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Retoques em fotografias preocupam autoridades e geram debate

Manipulações em imagens fotográficas estão longe de ser uma coisa nova. Já na década de 20 do século passado, o ditador russo Josef Stálin se utilizava da técnica de apagar de fotografias seus desafetos políticos. Mas o uso de ferramentas digitais, em especial o famoso Photoshop, levou essa questão a um novo patamar. E se a intenção de Stálin era reescrever a história, as facilidades atuais se prestam a motivos muito mais prosaicos, como rejuvenescer modelos em anúncios publicitários para vender creme facial.
No início do mês, um anúncio de um creme da marca Lancôme que trazia a imagem da atriz Julia Roberts retocada digitalmente teve sua veiculação proibida no Reino Unido sob a alegação de se tratar de propaganda enganosa. O episódio reacendeu a discussão sobre os limites para a alteração digital de imagens.
O enfrentamento dos casos de abuso preocupa autoridades brasileiras. Na Câmara dos Deputados, tramita o projeto de lei 6853/2010, já apelidado de "Lei do Photoshop", que prevê que imagens em veículos de comunicação que tenham sido alteradas tragam mensagem de alerta sobre a modificação. Na justificativa do projeto, o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA) afirma que sua intenção é "disponibilizar uma informação mais completa ao cidadão, para que ele possa ter mais subsídios para construir seus próprios valores e tomar suas próprias decisões".
Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas

O presidente da Associação Brasileira dos Fotógrafos de Publicidade, Tony Genérico, considera esse tipo de alerta positivo para a relação com o consumidor. "O que vemos muitas vezes é um nível de alteração da realidade que é um verdadeiro desrespeito ao público." Para ele, o mais importante é que a imagem não altere a realidade.
Gilberto dos Reis, diretor-executivo do Clube de Criação de São Paulo (entidade que se propõe a preservar a criatividade da propaganda), acha condenável qualquer tentativa de iludir o consumidor. "A publicidade conta com uma certa 'licença poética', que lhe permite usar imagens manipuladas quando está claro que não se quer representar a realidade", defende. "O problema é se houver a intenção de enganar o público, de mostrar um produto que na verdade é diferente daquele visto no anúncio."
Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas

Para o fotógrafo de moda Alex Villegas, especialista em tratamento de imagem, a questão é mais grave para quem considera a fotografia como uma ferramenta unicamente documental, que teria a obrigação de ser um registro fiel do mundo real. "É preciso ter em mente que ela é também abstração, uma representação de uma ideia artística." Ele ressalta que um dos desafios da publicidade é se equilibrar entre esses dois aspectos. "Quando a gente vê um anúncio de carro, não vemos a realidade. Nunca há engarrafamento, por exemplo. Isso porque o que se vende não é só o produto, mas sim o estilo de vida que o carro representa."
Um sinal de que a manipulação passou do limite é quando o próprio modelo se sente incomodado com o resultado final da imagem. Foi o que aconteceu com Caetano Veloso, que criticou publicamente o resultado final de uma foto sua ao lado de Gal Costa na capa da edição de julho da revista "Rolling Stone". Perto dos 70 anos, o cantor aparece com as rugas suavizadas. "Fique com cara de político babaca", disse em entrevista no "Programa do Jô".
Anúncio publicado no site Photoshop Disasters, que reúne exemplos de manipulações desastrosas

O site Photoshop Disasters (www.psdisasters.com) reúne casos de manipulação de imagens que por vezes beiram o grotesco ou o absurdo, como pessoas atravessando paredes ou modelos com membros desproporcionais.
No meio de tantas considerações, o fotógrafo e professor de tecnologia digital Clicio Barroso lembra que é importante não demonizar o programa em si. "O Photoshop é uma ferramenta fenomenal, e hoje não é possível pensar a fotografia sem esse recurso. O problema é o uso que se faz dele. Se você usa um martelo para bater um prego, tudo bem. Se você o usa para agredir seu vizinho, a culpa não é do martelo."

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