Mary Lou DiNardo checou três vezes antes de ter certeza: será que
aquilo era um emoticon de sorriso no final do último e-mail de seu
cliente mais ríspido?
Executivo da imobiliária West Coast, ele concluiu o MBA de uma
importante universidade e era "um homem muito intelectualizado e sério",
disse DiNardo, presidente da TK/PR, uma empresa de relações públicas.
"Eu tenho trabalhado com ele durante sete anos. De repente, enquanto nós
estávamos discutindo alguns problemas com um vendedor, ele se despediu
com um desses emoticons sorrindo ou piscando. Na verdade, não me lembro
de tê-lo visto, alguma vez, com um sorriso em seu rosto real."
DiNardo integra a fileira de profissionais que se encontra entre os
receptores de sorrisos, piscadelas e hahahas, conforme os emoticons
migram inesperadamente dos e-mails e textos de adolescentes (e, talvez,
de adultos mais frívolos) para as correspondências de empresários que se
orgulham de sua seriedade.
"Não há dúvidas de que os tenho enviado e recebido com mais frequência",
afirmou Martha Heller, presidente da Heller Search Associates, uma
empresa de recrutamento de executivos do setor de tecnologia das 500
empresas listadas pela revista "Fortune".
"Geralmente, eu uso um emoticon sorrindo ou piscando quando quero
sinalizar que o meu comentário tem a intenção de ser irônico. Por
exemplo, eu contratei um rapaz que é gerente de vendas e marketing para
lançar minha empresa no maravilhoso mundo das redes sociais, e lhe
enviei um aviso --'Eu ouvi dizer que existe algo chamado Twitter'-- e
adicionei o emoticon para que ele soubesse que não estou tão
desinformada assim."
Lisa M. Bates, professora-assistente de epidemiologia da Universidade
Columbia, tem adotado ultimamente o emoticon --assim como suas colegas
da universidade, "mas de modo moderado e estratégico", disse ela.
"Basicamente, eu costumo ser sarcástica e apressada, e um emoticon de
sorriso bem empregado é capaz de anular o tom áspero e evitar
mal-entendidos", afirmou Bates por e-mail. "Eu acredito que eles me
salvaram muitas vezes do risco de ser mal-interpretada."
SINAIS TROCADOS
No entanto, os emoticons podem gerar outros problemas: eles não são
lidos da mesma forma nas diferentes interfaces. "Na função de texto do
meu BlackBerry, há um menu lateral de emoticons (o quão ridículo é
isso?) que mostra caras amarelas sorrindo mas, também, chorando e
esbravejando ou piscando e assoprando beijos, etc", afirmou Bates.
"Eu enviei uma imagem relativamente nova, um emoticon de 'grande abraço'
--que, para deixar registrado, foi irônico. Mas, de algum modo, ele
apareceu em formato de símbolos no iPhone de um colega, sem cara de
sorriso, e sem lembrar nem um pouco um grande abraço. A partir da
perspectiva dele, aquilo se parecia, digamos, com uma imagem de partes
femininas chanfradas: ({}). Ele, então, circulou pelo laboratório
mostrando animadamente aos colegas o que eu havia acabado de lhe enviar.
Metade das pessoas (na maioria homens) concordou com a sua
interpretação, e a outra (principalmente mulheres) discordou e,
provavelmente, achou que ele fosse uma espécie de pervertido
desesperado."
À parte essas interpretações errôneas, novos adeptos como Bates e Heller
disseram que os emoticons não apenas sinalizam intenção em um meio onde
é notoriamente difícil ler o tom da mensagem mas, também, denotam uma
relação especial e agradável entre remetente e destinatário. "Eu vejo
isso como um exercício de construção de relacionamentos", afirmou
Heller.
Estudiosos de comunicação digital veem a emergente aprovação de
significantes excêntricos como algo inevitável mas nem sempre desejável.
"Eles fazem parte da degradação das habilidades da escrita --gramática,
sintaxe, estrutura de orações e, até mesmo, caligrafia-- que acompanham
a tecnologia digital", disse Bill Lancaster, professor de comunicação
da Universidade Northeastern em Boston. "Certamente, eu entendo a
necessidade de clareza. Mas a linguagem, usada apropriadamente, é clara
por si só."
Talvez não seja surpreendente, então, que escritores e professores de
redação estejam entre os últimos a resistirem aos emoticons. "Eu me
sinto profundamente ofendido por eles", disse Maria McErlane,
jornalista, atriz e apresentadora britânica do programa Radio 2 da BBC.
"Se alguém no Facebook me envia uma mensagem com uma cara
sorridente-carrancuda ou um pequeno pôr do sol usando óculos escuros, eu
desfaço a amizade. E também desfaço a amizade por causa de hahahas e
kkks. Não tem segunda chance. Acho que isso é preguiça. As suas palavras
não são suficientes? Usar uma pequena imagem com óculos escuros para
que eu saiba como você está se sentindo é mais do que ridículo."
Michele Farinet, coordenadora de uma escola em Manhattan, que passa
grande parte de seus dias respondendo a e-mails de pais de alunos
(majoritariamente profissionais), também é severamente crítica. Todo
esse assunto toca em um ponto nevrálgico.
"Para mim, é como um filme malfeito em que, logo que o pai agarra o
cachorrinho, a câmera imediatamente focaliza a expressão lastimosa do
filho - como se o diretor não acreditasse que o espectador fosse capaz
de sentir por si próprio uma emoção condizente com a cena", afirmou
Farinet por e-mail. "É isso que os emoticons fazem. Por favor, não me
'mostre' que eu deveria estar com uma cara alegre ou triste ou que você
está com uma cara triste ou alegre.
"Você seria capaz de imaginar a leitura do final de 'O Grande Gatsby'
dessa forma? 'Então partimos, barcos contra a corrente, levados
incessantemente de volta para o passado :-('"


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