Outro dia mesmo, eu estava aqui na porta de minha tendinha, descabelado e
de pijama, deblaterando e, a uma certa altura, se não me engano,
cheguei mesmo a obtemperar. Um vexame.
Meninos de rua, se me vissem, teriam jogado, com toda razão, pedra. Os
vizinhos reclamariam do barulho e da falta de compostura. Tudo por quê?
Por causa desses sítios de relacionamento virtual. Já falei mais de uma
vez, repito, embora agora de chinelo ao menos, mais uma vez; Facebook,
My Space et caterva (quanto tempo até alguém lançar um website com esse
nome: Etcaterva.com?). Sei que por causa deles perdi, conforme se dizia,
as estribeiras.
Feito Carmen Miranda, beijei a boca de quem não devia. Feito Lupiscínio
Rodrigues, amaldiçoei esses desgraçados e pus-me a rir. Dei o título
parafraseando música popular também. Do repertório de Roberto Carlos, Eu
quero ter uma milhão de amigos.
Foi a conta. No mesmo dia, abro meu jornal e dou de cara, tronco e
membros com uma reportagem de 3 páginas do suplemento G2 do Guardian a
respeito do --e estou citando-- aluguel de amigos. O título do texto
entregava tudo que podia entregar, "Você alugaria um amigo?".
O jornalista que assina a matéria, Tim Dowling, fez isso que jornalista,
ou gente que gostaria de ser jornalista, faz: passou pela experiência
que encontrou na net valendo-se dos "serviços" (vamos aspear esse troço)
do website rentafriend.com, que, supostamente, possui um banco de dados
com 218 mil nomes de infelizes dos Estados Unidos e do Canadá.
A coisa chegou a estas ilhas.
Ao que parece o mercantilismo humano teve sua origem no Japão, feito o
sushi e o harakiri. Perto de 2.000 pessoas pagam para ter seu nome no
sítio em questão. Com o fito exclusivo de ter uma companhia para ir a um
restaurante, teatro ou cinema, dar uma chegada a um museu, fazer
exercício no ginásio e, depois, quem sabe, folhear álbum de recortes.
Sim, álbum de recortes. Foi o que eu escrevi. No original, scrapbooking.
O autor da reportagem garante que não se trata de eufemismo para
coisíssima nenhuma. O fundador da máscula empreitada, Scott Rosenbaum,
garante que a coisa toda, o encontro, não tem "etc. e tal". É tudo
absolutamente platônico. Paremos para raciocinar: como é que ele pode
saber? Hem? Hem?
No meio de seu encontro ciber-jornalístico, Tim Dowling para e faz
algumas especulações beirando a filosofia, digamos assim. A amizade,
segundo ele, até há algum tempo, passara a ser uma atividade quase em
extinção.
Havia, isso sim, segundo ele, conhecidos, gente que passava pela vida da
gente entrando por uma porta e saindo por outra. Amizade estava na
lista de coisas que o dinheiro não compra (ô, Tim, quanta bobagem,
rapaz!) assim como a felicidade, a sabedoria e o sol e a lua a brilharem
no céu. Este mundo era frio, indiferente e repleto de pessoas frias e
indiferentes. A Terra povoava-se de estranhos. Amigo era algo a ser
conquistado.
Aqui eu tenho de abrir um parágrafo e jogar um chinelo, o do pé direito,
no jornalista em pauta e o do pé esquerdo na pauta por ele escolhida.
Sem ironia, ele prossegue dizendo que, agora, graças ao tal website,
mediante um punhado de dólares (ou libras, ienes ou reais) um amigo,
inda que por algumas horas, pode ser encontrado com a maior facilidade.
Com um pé nas costas, por assim dizer. Nas costas? Por aí, meu caro
jornalista, por aí. Ou um pouquinho mais embaixo.
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