quinta-feira, 7 de junho de 2012

Airtime, dos criadores do Napster, é nova opção entre os serviços de videochat

Quando os norte-americanos começaram a explorar em massa o mundo on-line, no começo dos anos 90, muitos deles frequentavam as salas de chat da AOL, para fazer contato com outros desconhecidos interessados na nova mídia.
Mas, de lá para cá, os atrativos de conversar com desconhecidos aleatórios desapareceram diante da ascensão de sites como o Facebook, nos quais os usuários tendem a interagir com pessoas que já conhecem. Agora, alguns novos serviços estão tentando recriar a espontaneidade daquele período pioneiro, mas com um toque moderno: videochats ao vivo.
O mais recente desses serviços, o Airtime, estreou na terça-feira (5), atraindo atenção especial porque seus fundadores, Sean Parker e Shawn Fanning, criadores do serviço de troca de arquivos de música Napster, são figuras conhecidas no mundo da tecnologia.
Sean Parker (esq.) e Shawn Fanning, os criadores do Napster, durante coletiva de imprensa do Airtime
Em um evento de imprensa repleto de celebridades, em Manhattan, Parker teceu elogios ao videochat, afirmando que acrescenta um toque humano à comunicação na internet. Ele mencionou os avanços desse tipo de serviço nos últimos anos, dada a proliferação de celulares inteligentes, computadores equipados com câmeras e conexões de banda larga.
Um estudo do Internet and American Life Project, do Pew Research Center, constatou que quase 40% dos adolescentes que usam a internet participam de videochats.
Parker criticou o serviço de telefonia e videochat Skype, da Microsoft, descrevendo-o como "tecnologia arcaica". Mas o Skype cresceu muito no ano passado. É usado para chats de trabalho, mas também por pessoas envolvidas em relacionamentos de longa distância e pais que querem mostrar um bebê recém-nascido a parentes que moram longe. O Skype informa que o número de minutos de chat do serviço cresceu em 40%, para 100 bilhões, no primeiro trimestre deste ano, ante o mesmo período em 2011, e que metade dessas conversações incluía vídeo.
A Apple tem um serviço de videochat, o FaceTime, e o Google criou uma ferramenta chamada Hangouts para seu serviço de rede social Google+. O Airtime também concorre contra rivais conectados ao setor de redes sociais, como TinyChat, ooVoo e Ustream.
Mas os analistas dizem que, embora serviços de videochat possam estar ganhando popularidade, talvez não se tornem tão comuns quanto outros métodos de comunicação, a exemplo de mensagens de texto, e-mails ou mensagens instantâneas.
"Há pessoas que ainda rejeitam a experiência de vídeo", diz Michael Gartenberg, analista do Gartner que acompanha os serviços ao consumidor na web. "Continuam a existir inibidores sociais ao videochat que não têm relação com a tecnologia. As pessoas se preocupam quanto à sua aparência e com a necessidade de trocar de roupa antes de uma conversa."
Gartenberg também aponta que os videochats muitas vezes não são tão tecnicamente fluidos quanto outros meios de comunicação. As pessoas precisam de conexão rápida à internet para evitar travamento e lentidão. E é mais difícil fazer outras coisas ao mesmo tempo quando a conversa com um amigo ocorre em vídeo.
"As pessoas falam ao telefone de toda espécie de lugar, o que não pode acontecer no caso dos videochats", disse. "Você precisa dedicar toda a sua atenção à conversa."
Algumas companhias enfrentam dificuldades para conquistar espaço no mercado de videochat. A SocialEyes, que, como a Airtime, formou parceria com o Facebook e era comandada por Rob Glaser, o fundador da RealNetworks, tropeçou durante um ano antes de optar por lançar um aplicativo menos ambicioso para aparelhos móveis.
Mas os criadores do Airtime estão convencidos de que os recursos sociais do serviço serão o caminho para o sucesso em longo prazo. O Airtime permite que os usuários utilizem webcams para se conectar com amigos do Facebook e desconhecidos. Eles podem procurar novos parceiros de chat com base em seus interesses, conexões sociais compartilhadas e localização. Quando se conectam, podem conversar e até assistir a vídeos do YouTube juntos.
Imagens do Airtime, serviço de chat com vídeo que funciona com integração ao Facebook
Parker, que foi o primeiro presidente do Facebook e teve papel fundamental em assessorar Mark Zuckerberg na expansão do site, diz que redes sociais como o Facebook na verdade podem desencorajar os usuários de se conectar a novas pessoas. Ele descreveu o atual repertório de experiências sociais na web como "tedioso".
"Estamos tentando restaurar a surpresa e a coincidência na internet", ele disse em entrevista em sua casa em Manhattan, no domingo (3). "Elas existiam, nos primeiros dias, mas desapareceram."
Fanning e Parker esperam que, ao oferecer um espaço claro e bem iluminado de reunião, o Airtime propicie o mesmo tipo de interação aleatória que os aproximou, em uma sala de chat no final dos anos 90. O encontro levou a uma amizade real e à criação do Napster, que sacudiu o mercado da música antes de ser fechado por uma saraivada de processos judiciais em 2011.
"O lado negativo de todas as nossas interações on-line é que elas ficam restritas pelo gráfico social", disse Parker, referindo-se às conexões de um usuário no Facebook.
Se o Airtime parece semelhante ao Chatroulette, um serviço de videochat aleatório que se tornou uma espécie de festa global em 2010, é exatamente porque a inspiração do serviço foi o Chatroulette.
Os dois empresários norte-americanos estavam trabalhando com Andrey Ternovskyi, o russo que criou o Chatroulette aos 17 anos, mas a colaboração não funcionou. Parker e Fanning se impressionaram com a rápida popularidade do Chatroulette, que atraía quase 2 milhões de visitantes ao mês em seu pico, antes de rapidamente perder prestígio, e decidiram tentar reproduzir essa receita em seu serviço de chat, com alguns toques pessoais.
Mas eles reconhecem que o Airtime enfrenta os mesmos desafios que o Chatroulette não conseguiu superar --especialmente o risco de que a pessoa com quem você vai começar a conversar aleatoriamente esteja sem roupa.
Para combater esse problema, eles adotaram diversos sistemas, entre os quais um software de reconhecimento facial que envia um alerta caso não reconheça um rosto nas imagens da câmera e um sistema de classificação sob o qual as pessoas dão notas aos seus parceiros depois de uma interação. As pessoas que são trocadas por outro parceiro aleatório de conversa com muita frequência terão classificação inferior à daquelas que conseguem sustentar conversas longas.
Os usuários com melhor classificação formarão uma lista integrada, para garantir que as pessoas que querem usar o chat com seriedade encontrem parceiros igualmente sérios. O serviço também permite capturar imagens durante as conversas e conta com moderadores para fiscalizar diálogos inapropriados.
Por enquanto, o Airtime servirá para interações entre duas pessoas. Os fundadores dizem que no futuro ele pode se tornar um serviço que permite transmitir chats em vídeo para audiências maiores. E pode também surgir um sistema de produtos virtuais --efeitos especiais que, por exemplo, acrescentam um bigode ao rosto do usuário e podem servir como fonte de receita. O Airtime também veiculará publicidade. Já atraiu investidores pesados, obtendo perto de US$ 40 milhões junto a um fundo de capital para empreendimentos e tem em seu conselho figuras conhecidas como Robert Pittman, executivo-chefe da Clear Channel e fundador da MTV.
Gartenberg diz que, dado o sucesso meteórico do Chatroulette, seria lógico que o Airtime encontrasse êxito viral semelhante.
"O evento atraiu muita publicidade", diz. "E hoje em dia se destacar dos rivais já significa vencer metade da batalha."

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