Componente essencial da inovação tecnológica desde Steven Jobs, o design
está entre os mais importantes desafios estratégicos. O Vale do Silício
o privilegia como parte de seu esforço para preservar sua vantagem
diante dos simples "fabricantes". E o caso da Índia, mais que o do
Brasil, parece confirmar sua importância.
Treinados em Bangalore, Mumbai, Déli ou Calcutá, os engenheiros e
matemáticos indianos desfrutam de considerável reputação. Mas o mesmo
não se aplica aos designers do país, cuja insuficiência começa a ser
apontada como ponto fraco.
"Não é que nos faltem designers", aponta Poyny Bhatt, diretora da
Society for Innovation and Entrepreneurship (Sine), uma incubadora
ligada ao Instituto Indiano de Tecnologia -Bombaim, uma das mais
prestigiosas escolas de engenharia indianas. "Mas devido à proliferação
de companhias especializadas em engenharia e fabricação de produtos
físicos, damos ênfase menor ao design".
"No passado era possível vender qualquer produto, mesmo que seu design
fosse medíocre, desde que fosse funcional", me disse Kashan Kumar,
presidente da divisão local da The Indus Entrepreneurs (TIE), uma
organização fundada no Vale do Silício para fomentar os empreendedores
indianos em todo o mundo, bancada com o dinheiro e a experiência de
compatriotas que conquistaram sucesso. "Aos olhos da classe média, o
design pode ser desejável mas não é imprescindível, porque se pode viver
sem ele. E além disso ele custa mais caro. Arte é tradicionalmente
coisa de rico".
"Não conheço muitos jovens que pensem em design como profissão",
acrescenta Kumar. "Temos centenas de universidades que formam
engenheiros e pouquíssimas que formam designers. As belas artes são
vistas como hobby, e não como profissão", ele lamenta.
Para Mahesh Samat, ex-diretor executivo da Disney-India e hoje
empresário no ramo do vinho (é dono de um vinhedo a 200 quilômetros de
Mumbai), e autor de histórias em quadrinhos (já escreveu algumas). "O
maio desafio para a Índia consiste na falta de respeito pelas artes.
Cedo ou tarde nos arrependeremos por essa falta de criatividade
original. Não pensamos de maneira diferente; para retormar a expressão
da Apple, não pensamos 'out of the box'. A indústria cinematográfica
estimula esse aspecto, distinto da engenharia, mas é o único âmbito no
qual somos criativos".
"Os indianos estão apenas começando a se interessar por design", afirma
Prem Chandarkavar, arquiteto que trabalha em Bangalore. "Antes da crise
de 2008, o crescimento do nosso Produto Interno Bruto (PIB) era de 8% a
9% ao ano, e qualquer coisa que fabricássemos permitia ganhar dinheiro. O
design e a inovação não eram indispensáveis. A insegurança nos obrigou a
mudar, mas treinar profissionais de design não é algo que se consiga de
um salto. É preciso cultivar esses talentos. É preciso tempo e
reflexão". A indústria indiana já começou a enfrentar esse problema e
"dentro de três anos as coisas serão diferentes", estima o arquiteto,
capacitado a avaliar essa evolução porque a cada dia surgem mais
solicitações de espaços projetados para estimular a inovação.
A consciência sobre o valor do design está crescendo onde quer que se
vá. Um aspecto importante, se considerarmos que é mais fácil superar a
defasagem nesse campo do que em outros.
Assim, Recife, tornada o terceiro polo tecnológico brasileiro graças à
qualidade de seus engenheiros, hoje aposta nas "indústrias criativas".
"Não nos centramos apenas na tecnologia", me disse Sílvio Meira,
presidente do Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR).
"Temos 40 designers e multiplicamos as equipes multidisciplinares". Para
ele, como para Kumar da TIE, em Mumbai, o design é crucial para
qualquer empresa desejosa de conquistar os mercados mundiais.
O CESAR colabora com designers indianos; o que aconteceria se a isso fossem acrescentados engenheiros indianos?
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