Um vírus, como uma ideia, não é necessariamente maligno, nem mesmo
subversivo. Seu poder de contágio e destruição está na capacidade que
tem de desviar o fluxo de energia de um sistema estabelecido para canais
alternativos. Como um atalho, gambiarra ou curto-circuito, a nova
proposta pode até dar certo, embora sejam grandes as possibilidades do
tiro sair pela culatra. Ou da solução ser temporária.
A Evolução Natural das espécies, religiões, escolas, sistemas de
governo, estruturas familiares e tecnologias mostra que, por mais que
sejam muitas as possibilidades, contam-se nos dedos as intervenções que
sobrevivem ao tempo.
A aparente variedade que se apresenta hoje é só uma pequena amostra do
universo de possibilidades que surgiram e foram descartadas por não
serem boas, fortes ou adequadas o suficiente. O carro elétrico inventado
no começo do século 20 não teria como sobreviver em um mundo sem
energia suficiente para abastecê-lo. Os cavalos nas cidades promoveriam
uma catástrofe de saúde pública muito antes que a poluição e os
atropelamentos chamassem a atenção. A energia nuclear provavelmente será
o combustível do futuro, assim que soubermos o que fazer com seu lixo.
Ideias alternativas só se propagam quando há uma estrutura para
sustentá-las e uma massa de manobra grande o suficiente para
assimilá-las sem questionar, como bons soldados. Por mais que a figura
dos milicianos seja glorificada nas notícias que se recebe de lugares
tão distantes quanto Trípoli e Oakland, nem todos fazem o bem e são
pouquíssimos os que têm verdadeira consciência dos reflexos de seus
atos. Boa parte de suas funções é uma simples resposta a solicitações de
um grupo, não tão diferente da de um frequentador de uma academia de
ginástica ou de uma micareta.
Sejam hackers, estudantes, camponeses, militantes, soldados a serviço de
um governo, ideal, general inimigo, senhor feudal, comerciante, mafioso
ou narcotraficante, a maior parte dos guerrilheiros costuma ser
composta de pessoas bem-intencionadas, usadas como peões a serviço de
uma estratégia maior, que os mantém na ignorância para a segurança de
todos.
Julien Assange é uma exceção, e não é das boas. Seu comportamento é de
um narcisismo e necessidade de atenção dignos de um transtorno de
personalidade. Ativistas dedicados e responsáveis costumam ser, como
ninjas, invisíveis. Não se vê seu movimento nem é possível prever a
direção do golpe. Mais do que tudo, não se sabe quantos eles são, onde
estarão e quando atacarão. Desde muito antes de Robin Hood a sombra, os
becos e a floresta sempre ocultaram exércitos de anônimos, escondendo
seu número e aumentando o terror do seu mito.
Mal se sabem quantos foram integrantes do ETA, da OLP, do IRA ou das
Brigadas Vermelhas, quanto mais os seus nomes. Vários Montoneros,
Sandinistas, Tupamaros e Zapateros envelheceram tranquilamente no
anonimato. Bons guerrilheiros só são identificados quando capturados,
mortos ou se, depois de velhos, resolvem se vangloriar do que fizeram -
ou seja, quando não são tão bons quanto pregam.
Raramente há um subcomandante Marcos ou outro bode expiatório a chefiar
as milícias. Quando seus integrantes não são mais necessários, eles
rapidamente se misturam à massa e planejam ações enquanto cortam seu
cabelo, varrem sua sala, dirigem seu automóvel e cozinham sua comida.
O disfarce de um guerrilheiro costuma ser impecável porque a maioria não
nasceu na luta armada. Muitos eram simples camponeses que, contaminados
pelo poder de uma ideia, passaram a agir de forma diferente do que se
esperava.
Boa parte das ações é bem intencionada, mas o mundo está pequeno e
conectado demais para que uma boa iniciativa seja implementada na marra,
à revelia dos outros. Da mesma forma que as intervenções feitas no meio
ambiente se tornaram grandes demais para serem absorvidas (e
absolvidas) pelo planeta, as novas manifestações precisam ser
integradas, hackeadas, sorrateiras.
Não há mais tempo nem espaço para confrontá-las abertamente ou ignorá-las.
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