quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Velhos guerrilheiros

Um vírus, como uma ideia, não é necessariamente maligno, nem mesmo subversivo. Seu poder de contágio e destruição está na capacidade que tem de desviar o fluxo de energia de um sistema estabelecido para canais alternativos. Como um atalho, gambiarra ou curto-circuito, a nova proposta pode até dar certo, embora sejam grandes as possibilidades do tiro sair pela culatra. Ou da solução ser temporária.
A Evolução Natural das espécies, religiões, escolas, sistemas de governo, estruturas familiares e tecnologias mostra que, por mais que sejam muitas as possibilidades, contam-se nos dedos as intervenções que sobrevivem ao tempo.
A aparente variedade que se apresenta hoje é só uma pequena amostra do universo de possibilidades que surgiram e foram descartadas por não serem boas, fortes ou adequadas o suficiente. O carro elétrico inventado no começo do século 20 não teria como sobreviver em um mundo sem energia suficiente para abastecê-lo. Os cavalos nas cidades promoveriam uma catástrofe de saúde pública muito antes que a poluição e os atropelamentos chamassem a atenção. A energia nuclear provavelmente será o combustível do futuro, assim que soubermos o que fazer com seu lixo.
Ideias alternativas só se propagam quando há uma estrutura para sustentá-las e uma massa de manobra grande o suficiente para assimilá-las sem questionar, como bons soldados. Por mais que a figura dos milicianos seja glorificada nas notícias que se recebe de lugares tão distantes quanto Trípoli e Oakland, nem todos fazem o bem e são pouquíssimos os que têm verdadeira consciência dos reflexos de seus atos. Boa parte de suas funções é uma simples resposta a solicitações de um grupo, não tão diferente da de um frequentador de uma academia de ginástica ou de uma micareta.
Sejam hackers, estudantes, camponeses, militantes, soldados a serviço de um governo, ideal, general inimigo, senhor feudal, comerciante, mafioso ou narcotraficante, a maior parte dos guerrilheiros costuma ser composta de pessoas bem-intencionadas, usadas como peões a serviço de uma estratégia maior, que os mantém na ignorância para a segurança de todos.
Julien Assange é uma exceção, e não é das boas. Seu comportamento é de um narcisismo e necessidade de atenção dignos de um transtorno de personalidade. Ativistas dedicados e responsáveis costumam ser, como ninjas, invisíveis. Não se vê seu movimento nem é possível prever a direção do golpe. Mais do que tudo, não se sabe quantos eles são, onde estarão e quando atacarão. Desde muito antes de Robin Hood a sombra, os becos e a floresta sempre ocultaram exércitos de anônimos, escondendo seu número e aumentando o terror do seu mito.
Mal se sabem quantos foram integrantes do ETA, da OLP, do IRA ou das Brigadas Vermelhas, quanto mais os seus nomes. Vários Montoneros, Sandinistas, Tupamaros e Zapateros envelheceram tranquilamente no anonimato. Bons guerrilheiros só são identificados quando capturados, mortos ou se, depois de velhos, resolvem se vangloriar do que fizeram - ou seja, quando não são tão bons quanto pregam.
Raramente há um subcomandante Marcos ou outro bode expiatório a chefiar as milícias. Quando seus integrantes não são mais necessários, eles rapidamente se misturam à massa e planejam ações enquanto cortam seu cabelo, varrem sua sala, dirigem seu automóvel e cozinham sua comida.
O disfarce de um guerrilheiro costuma ser impecável porque a maioria não nasceu na luta armada. Muitos eram simples camponeses que, contaminados pelo poder de uma ideia, passaram a agir de forma diferente do que se esperava.
Boa parte das ações é bem intencionada, mas o mundo está pequeno e conectado demais para que uma boa iniciativa seja implementada na marra, à revelia dos outros. Da mesma forma que as intervenções feitas no meio ambiente se tornaram grandes demais para serem absorvidas (e absolvidas) pelo planeta, as novas manifestações precisam ser integradas, hackeadas, sorrateiras.
Não há mais tempo nem espaço para confrontá-las abertamente ou ignorá-las.

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