quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Nokia e HP inovam ao tentar recuperar o atraso

Nos mercados de tecnologia, tentar recuperar o atraso é um jogo doloroso, caro e muitas vezes fútil, mesmo para as maiores empresas.
A Nokia e a Hewlett-Packard ofereceram provas vívidas desse desafio, na quarta-feira, cada qual à sua maneira.
Em memorando aos funcionários da Nokia, Stephen Elop, o novo presidente-executivo da empresa, comparou sua situação, ao tentar recuperar o atraso diante da Apple e do Google nos celulares inteligentes, à de um homem em pé em uma plataforma de petróleo marítima em chamas.
"Um homem estava em uma plataforma em chamas, e tinha de fazer uma escolha", escreveu Elop no memorando, que circulou amplamente na Internet. "Ele decidiu saltar".
No memorando, Elop afirmou que a Nokia também tinha de saltar, metaforicamente -tomar medidas ousadas a fim de recuperar o terreno perdido.
Enquanto isso, em San Francisco, a HP, maior fabricante de computadores pessoais, também dava o seu salto, na quarta-feira. A companhia anunciou que introduziria um novo tablet, o Touchpad, em um esforço por recuperar o terreno perdido diante da Apple e do iPad. A HP também introduziu dois novos celulares inteligentes, ingressando em outro mercado no qual se havia deixado atrasar.
Mas a Nokia e a HP -embora sejam gigantes da tecnologia- enfrentam sérias dificuldades para recuperar o atraso diante de concorrentes que ganharam vantagem inicial em um cenário que passa por mudanças rápidas. A situação seria difícil em qualquer setor, mas nos mercados de tecnologia é ainda mais.
"É possível recuperar o atraso, mas muito difícil', disse Mark Anderson, presidente-executivo do Strategic News Service, um boletim de tecnologia. "Quase nunca dá certo".
A História oferece um punhado de histórias de sucesso, quanto a recuperar atrasos. Por exemplo, a IBM, mastodonte da era da computação mainframe, se deixou ficar para trás dos líderes dos novos mercados de minicomputadores e computadores pessoais, mas mais tarde se recuperou. E a Microsoft chegou com atraso ao mercado de navegadores de Internet, mas terminou por se tornar a líder de mercado.
Ainda assim, uma empresa que se deixa ficar para trás na corrida da inovação pode permitir que rivais ágeis ganhem um ímpeto difícil de reverter. Parceiros setoriais, criadores de software e clientes optam pelo líder, e seus ganhos se multiplicam. À medida que mais e mais pessoas passam a usar a nova tecnologia, ela se torna mais valiosa e deflagra o poder do "efeito de rede", em termos econômicos.
No memorando de Elop aos funcionários da Nokia, divulgado na terça-feira pelo blog Endgadget, ele apontou para esses efeitos. Escreveu que a Nokia se via do lado derrotado em uma "guerra de ecossistemas" que envolve criadores de software, aplicativos e jogos, publicidade, comércio eletrônico, buscas e outros serviços.
A Nokia, escreveu Elop, deve "criar, catalisar ou aderir a um ecossistema".
Elop deve falar aos analistas em uma reunião em Londres, sexta-feira, a expectativa é de que ele comece a delinear a nova estratégia da Nokia. Mas o que essa estratégia poderia incluir? Para a Nokia, sediada na Finlândia, aderir a um grande parceiro de tecnologia, dizem os analistas, é a opção mais provável em longo prazo.
"A Nokia não dispõe das armas necessárias a travar essa batalha sozinha", disse George Colony, presidente da Forrester Research.
Os parceiros mais atraentes seriam Google ou Microsoft, dizem os analistas. Ambas as empresas vêm cortejando a Nokia, recentemente. Ainda que a empresa possa estar perdendo terreno no mercado de celulares inteligentes -sua fatia de mercado no segmento caiu a 28% no quarto trimestre de 2010-, ela ainda vende mais aparelhos desse tipo do que qualquer outra empresa e poderia ser uma valiosa parceira e comercializadora do sistema operacional Google Android para celulares inteligentes e do Windows Mobile 7, da Microsoft.
A maioria dos celulares inteligentes da Nokia funciona com o muito criticado sistema operacional Symbian. Para convencer a Nokia a mudar, Google e Microsoft estão oferecendo centenas de milhões de dólares em assistência de engenharia e marketing, de acordo com uma pessoa que trabalhou como consultora para a empresa e foi informado sobre as negociações.
Elop assumiu o comando da Nokia em setembro, vindo da Microsoft, onde tinha posto de primeiro escalão.
"Mas a escolha óbvia para a Nokia seria o Android", disse Colony. "A Microsoft seria um caminho de maior risco".
Depois que o Apple iPhone redefiniu os celulares inteligentes, os aparelhos equipados com o Google Android começaram a atrair usuários e criadores de software rapidamente. Em 2009, cerca de 25 milhões de iPhones foram vendidos, ante apenas oito milhões de celulares acionados pelo Android. No ano passado, os embarques do Android atingiram os 61 milhões, ante 48 milhões de iPhones, de acordo com estimativas da Sanford C. Bernstein & Company.
A HP iniciou sua incursão ao mercado de tablets na quarta-feira, e também introduziu dois celulares inteligentes, Os preços não foram anunciados, e ela ainda não assinou parcerias com operadoras de telefonia móvel.
Os produtos são os primeiros baseados na tecnologia da Palm, adquirida em julho pela HP por apenas US$ 1,2 bilhão.
"Perdemos um ciclo de produto -não há dúvida quanto a isso", disse Jon Rubinstein, vice-presidente sênior da HP e antigo presidente-executivo da Palm.
Fazer progressos no mercado de tablets é prioridade para a HP, Especialmente se os tablets roubarem mercado aos computadores pessoais, um dos baluartes da companhia. As vendas de tablets devem mais que quadruplicar nos dois próximos anos, para 71 milhões de unidades em todo o mundo, em 2012, de acordo com a IDC.
Em um evento em San Francisco, executivos da HP demonstraram o TouchPad, que parece com o Apple iPad mas é mais esbelto e tem peso 50% menor. A HP está apostando que consumidores e criadores de software receberão de modo positivo o ingresso de uma nova grande empresa no mercado, especialmente uma companhia com tradição de cooperação com clientes empresariais, o que não é o caso da Apple.
E a HP enfatizou ter os recursos e paciência requeridos em longo prazo.
"Estamos no começo da maratona", disse Todd Bradley, vice-presidente executivo da HP.
Os analistas afirmam que para recuperar o atraso diante de um líder inovador, as grandes empresas de tecnologia precisam eliminar burocracia. Eles acrescentam que elas precisam concentrar todos os recurso empresariais na inovação. Por exemplo, para acelerar sua introdução de computadores pessoais, no começo dos anos 80, a IBM criou uma equipe independente composta pelos chamados "patos selvagens", e os instalou na Flórida, longe de sua sede.
No seu vigoroso memorando interno, Elop ecoou um famoso chamado às armas de seu antigo chefe na Microsoft. Em 1995, Bill Gates escreveu um memorando intitulado "O Maremoto da Internet". No texto, ele mencionava "um novo concorrente 'nascido' na Internet", a Netscape, que então detinha 70% do mercado de navegadores para a Web. A intenção do novo rival, escreveu Gates, era "tornar dispensável o sistema operacional subjacente", o Windows.
A concentração feroz da Microsoft quanto a enfrentar o desafio da Netscape, dizem os analistas, galvanizou a empresa e estimulou seus engenheiros a inovar, ainda que as táticas empregadas tenham resultados em processo antitruste do governo federal contra a empresa.
Mas Gates fez seu alerta antes que a Netscape abrisse seu capital, quando ela era uma empresa relativamente pequena. Em contraste, o apaixonado memorando de Elop surge em um momento no qual a concorrente mais direta da Nokia nos celulares inteligentes, a Apple, já uma potência empresarial.
Nokia e HP têm ativos formidáveis para acelerar suas campanhas de recuperação. A Nokia detém o maior mercado de celulares, relacionamentos firmes com operadoras de telefonia móvel em todo o mundo e uma marca estelar. A HP trará para a disputa no segmento de tablets seus recursos como maior companhia mundial de computação -experiência industrial, marca conhecida e distribuição mundial.
"Em seus respectivos campos, Nokia e HP têm a maior base de consumidores e a maior fatia de mercado", disse David Yoffe, professor da escola de administração de empresas da Universidade Harvard. "Mas o desafio fundamental, para HP e Nokia igualmente, é determinar se serão capazes de agir rápido, se levarmos em conta a velocidade com que o restante do mundo vem se movendo".

Nenhum comentário: