Nos mercados de tecnologia, tentar recuperar o atraso é um jogo
doloroso, caro e muitas vezes fútil, mesmo para as maiores empresas.
A Nokia e a Hewlett-Packard ofereceram provas vívidas desse desafio, na quarta-feira, cada qual à sua maneira.
Em memorando aos funcionários da Nokia, Stephen Elop, o novo
presidente-executivo da empresa, comparou sua situação, ao tentar
recuperar o atraso diante da Apple e do Google nos celulares
inteligentes, à de um homem em pé em uma plataforma de petróleo marítima
em chamas.
"Um homem estava em uma plataforma em chamas, e tinha de fazer uma
escolha", escreveu Elop no memorando, que circulou amplamente na
Internet. "Ele decidiu saltar".
No memorando, Elop afirmou que a Nokia também tinha de saltar,
metaforicamente -tomar medidas ousadas a fim de recuperar o terreno
perdido.
Enquanto isso, em San Francisco, a HP, maior fabricante de computadores
pessoais, também dava o seu salto, na quarta-feira. A companhia anunciou
que introduziria um novo tablet, o Touchpad, em um esforço por
recuperar o terreno perdido diante da Apple e do iPad. A HP também
introduziu dois novos celulares inteligentes, ingressando em outro
mercado no qual se havia deixado atrasar.
Mas a Nokia e a HP -embora sejam gigantes da tecnologia- enfrentam
sérias dificuldades para recuperar o atraso diante de concorrentes que
ganharam vantagem inicial em um cenário que passa por mudanças rápidas. A
situação seria difícil em qualquer setor, mas nos mercados de
tecnologia é ainda mais.
"É possível recuperar o atraso, mas muito difícil', disse Mark Anderson,
presidente-executivo do Strategic News Service, um boletim de
tecnologia. "Quase nunca dá certo".
A História oferece um punhado de histórias de sucesso, quanto a
recuperar atrasos. Por exemplo, a IBM, mastodonte da era da computação
mainframe, se deixou ficar para trás dos líderes dos novos mercados de
minicomputadores e computadores pessoais, mas mais tarde se recuperou. E
a Microsoft chegou com atraso ao mercado de navegadores de Internet,
mas terminou por se tornar a líder de mercado.
Ainda assim, uma empresa que se deixa ficar para trás na corrida da
inovação pode permitir que rivais ágeis ganhem um ímpeto difícil de
reverter. Parceiros setoriais, criadores de software e clientes optam
pelo líder, e seus ganhos se multiplicam. À medida que mais e mais
pessoas passam a usar a nova tecnologia, ela se torna mais valiosa e
deflagra o poder do "efeito de rede", em termos econômicos.
No memorando de Elop aos funcionários da Nokia, divulgado na terça-feira
pelo blog Endgadget, ele apontou para esses efeitos. Escreveu que a
Nokia se via do lado derrotado em uma "guerra de ecossistemas" que
envolve criadores de software, aplicativos e jogos, publicidade,
comércio eletrônico, buscas e outros serviços.
A Nokia, escreveu Elop, deve "criar, catalisar ou aderir a um ecossistema".
Elop deve falar aos analistas em uma reunião em Londres, sexta-feira, a
expectativa é de que ele comece a delinear a nova estratégia da Nokia.
Mas o que essa estratégia poderia incluir? Para a Nokia, sediada na
Finlândia, aderir a um grande parceiro de tecnologia, dizem os
analistas, é a opção mais provável em longo prazo.
"A Nokia não dispõe das armas necessárias a travar essa batalha sozinha", disse George Colony, presidente da Forrester Research.
Os parceiros mais atraentes seriam Google ou Microsoft, dizem os
analistas. Ambas as empresas vêm cortejando a Nokia, recentemente. Ainda
que a empresa possa estar perdendo terreno no mercado de celulares
inteligentes -sua fatia de mercado no segmento caiu a 28% no quarto
trimestre de 2010-, ela ainda vende mais aparelhos desse tipo do que
qualquer outra empresa e poderia ser uma valiosa parceira e
comercializadora do sistema operacional Google Android para celulares
inteligentes e do Windows Mobile 7, da Microsoft.
A maioria dos celulares inteligentes da Nokia funciona com o muito
criticado sistema operacional Symbian. Para convencer a Nokia a mudar,
Google e Microsoft estão oferecendo centenas de milhões de dólares em
assistência de engenharia e marketing, de acordo com uma pessoa que
trabalhou como consultora para a empresa e foi informado sobre as
negociações.
Elop assumiu o comando da Nokia em setembro, vindo da Microsoft, onde tinha posto de primeiro escalão.
"Mas a escolha óbvia para a Nokia seria o Android", disse Colony. "A Microsoft seria um caminho de maior risco".
Depois que o Apple iPhone redefiniu os celulares inteligentes, os
aparelhos equipados com o Google Android começaram a atrair usuários e
criadores de software rapidamente. Em 2009, cerca de 25 milhões de
iPhones foram vendidos, ante apenas oito milhões de celulares acionados
pelo Android. No ano passado, os embarques do Android atingiram os 61
milhões, ante 48 milhões de iPhones, de acordo com estimativas da
Sanford C. Bernstein & Company.
A HP iniciou sua incursão ao mercado de tablets na quarta-feira, e
também introduziu dois celulares inteligentes, Os preços não foram
anunciados, e ela ainda não assinou parcerias com operadoras de
telefonia móvel.
Os produtos são os primeiros baseados na tecnologia da Palm, adquirida em julho pela HP por apenas US$ 1,2 bilhão.
"Perdemos um ciclo de produto -não há dúvida quanto a isso", disse Jon
Rubinstein, vice-presidente sênior da HP e antigo presidente-executivo
da Palm.
Fazer progressos no mercado de tablets é prioridade para a HP,
Especialmente se os tablets roubarem mercado aos computadores pessoais,
um dos baluartes da companhia. As vendas de tablets devem mais que
quadruplicar nos dois próximos anos, para 71 milhões de unidades em todo
o mundo, em 2012, de acordo com a IDC.
Em um evento em San Francisco, executivos da HP demonstraram o TouchPad,
que parece com o Apple iPad mas é mais esbelto e tem peso 50% menor. A
HP está apostando que consumidores e criadores de software receberão de
modo positivo o ingresso de uma nova grande empresa no mercado,
especialmente uma companhia com tradição de cooperação com clientes
empresariais, o que não é o caso da Apple.
E a HP enfatizou ter os recursos e paciência requeridos em longo prazo.
"Estamos no começo da maratona", disse Todd Bradley, vice-presidente executivo da HP.
Os analistas afirmam que para recuperar o atraso diante de um líder
inovador, as grandes empresas de tecnologia precisam eliminar
burocracia. Eles acrescentam que elas precisam concentrar todos os
recurso empresariais na inovação. Por exemplo, para acelerar sua
introdução de computadores pessoais, no começo dos anos 80, a IBM criou
uma equipe independente composta pelos chamados "patos selvagens", e os
instalou na Flórida, longe de sua sede.
No seu vigoroso memorando interno, Elop ecoou um famoso chamado às armas
de seu antigo chefe na Microsoft. Em 1995, Bill Gates escreveu um
memorando intitulado "O Maremoto da Internet". No texto, ele mencionava
"um novo concorrente 'nascido' na Internet", a Netscape, que então
detinha 70% do mercado de navegadores para a Web. A intenção do novo
rival, escreveu Gates, era "tornar dispensável o sistema operacional
subjacente", o Windows.
A concentração feroz da Microsoft quanto a enfrentar o desafio da
Netscape, dizem os analistas, galvanizou a empresa e estimulou seus
engenheiros a inovar, ainda que as táticas empregadas tenham resultados
em processo antitruste do governo federal contra a empresa.
Mas Gates fez seu alerta antes que a Netscape abrisse seu capital,
quando ela era uma empresa relativamente pequena. Em contraste, o
apaixonado memorando de Elop surge em um momento no qual a concorrente
mais direta da Nokia nos celulares inteligentes, a Apple, já uma
potência empresarial.
Nokia e HP têm ativos formidáveis para acelerar suas campanhas de
recuperação. A Nokia detém o maior mercado de celulares, relacionamentos
firmes com operadoras de telefonia móvel em todo o mundo e uma marca
estelar. A HP trará para a disputa no segmento de tablets seus recursos
como maior companhia mundial de computação -experiência industrial,
marca conhecida e distribuição mundial.
"Em seus respectivos campos, Nokia e HP têm a maior base de consumidores
e a maior fatia de mercado", disse David Yoffe, professor da escola de
administração de empresas da Universidade Harvard. "Mas o desafio
fundamental, para HP e Nokia igualmente, é determinar se serão capazes
de agir rápido, se levarmos em conta a velocidade com que o restante do
mundo vem se movendo".
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